terça-feira, 24 de junho de 2008

A imperfeição sem-ti(r)

Um copo a dois

Cá estamos. Anunciou José, sem euforia, no entanto. O Viagente e ele tinham chegado ao bar, Anabela tinha ficado em casa, visto que se sentia exausta aqueles miúdos são umas pestes…, por isso ficara em casa e além do mais amanhã é que era o grande dia, iam ao festival de música! Todavia, José, ou por ter menos interesse nesse festival, ou por ter algo importante a falar com o velho amigo, trouxera-o ao bar, naquela Sexta-feira à noite. O José desligou o carro. Estacionou-o num parque fechado ali não muito longe. É aqui! Aqui era o bar onde iríamos pôr a conversa em dia, que há muito estava desactualizada. Praticamente era ali que toda a razão de ser da vinda do Viagente se consubstanciava. Entraram, não sem antes o porteiro os cumprimentar, olhando-os de relance para confirmar que estavam condignamente apropriados para frequentar aquele tipo de espaço. Parece bonito… que elegância! Comentava com honestidade o Viagente, enquanto observava as mesas baixas, negras a condizer com o almofadado das cadeiras, quase poltronas. O chique prolongava-se na mistura de perfumes, na música discreta, nas conversas a meia-voz e na roupa dos clientes. Entravam: as pessoas distribuíam-se pelo bar de um modo sossegado, tranquilo e muito elegante. Rondariam os trinta, trinta e cinco anos, talvez um pouco mais: não dava para perceber bem pelas caras femininas que ricamente se camuflavam por entre cosméticos. A um canto, mas não em claustrofobia fumava-se socialmente. Com os risos e os tilintares de copos compunham-se em acordes notas de um piano e de uma guitarra-baixo. Tu é que és um sortudo! José seguia o seu caminho até à mesa, não ouvindo o comentário não sarcástico, mas acutilante do companheiro. A elegância transbordava no modo de vestir até dos empregados do balcão, sobriamente paradoxais no seu branco-negro. Os clientes pareciam sorrir sempre, com convém quando se sai à noite e sorriam, mas não riam alto para não perturbar a música ou confundir o branco com o preto do fato dos empregados, alinhados militarmente.


Os dois amigos não preferiram o balcão, mais propício para aqueles que com um café ou um whisky olham sorrateiramente, para que nessa noite possam dormir em companhia. Dirigem-se para a tal mesa, que fica no meio do bar, aconchegada pela pacatez de uma coluna e de uma planta de interior. Bar muito interessante. De facto, pá! Abriu há pouco tempo, é a coisa mais in que se tem cá. José tinha razão. Era um bar de design moderno, esquadrinhado para satisfazer os novos gostos de uma classe bem sucedida. De tons avermelhados, que se conjugavam com um preto brilhante, as paredes refulgiam uma luz indirecta branca-quente. No tal balcão em que se mediam olhares e se passeavam corpos, reluzia uma pedra mármore iluminada agora em tons de frio. Contrastavam-se cromatismos, cruzavam-se homens e mulheres. Sentaram-se. José estava tenso, mordia nervosamente as unhas. Não falava. O Viagente contemplava. Diante, cruzavam-se umas pernas altas e morenas de uma italiana. Enquanto os dois amigos se ambientavam ao espaço, um porque queria desfrutar da novidade, o outro porque lhe fugiam as palavras para o que tinha que dizer, chega um empregado, que saudando-os com mordomias lhes pergunta o que querem tomar. O José, como anfitrião, antecipa-se e pede para ambos um Porto reserva, mas tawny não ruby. O empregado franze o sobrolho pelo exotismo do pedido. Deve ter a mania que é enólogo… mais um bocado e começaria a dissertar sobre a problemática do envelhecimento do vinho em balseiros, resmungava o empregado pelo caminho ao longo do corredor que o levava à prateleira dos vinhos espirituosos. Belo sítio, José, muito aconchegante, cheio de caras bonitas, de aromas promissores! Sorriram-se, estavam agora dois homens, dois amigos, sozinhos sem mais ninguém, sem qualquer tipo de entraves que lhes imputassem um comentário mais ousado de juvenil ostentação. De facto, de facto… há aqui coisa interessante. Soltou-se a gargalhada fraterna. A escaramuça do jantar nem sequer tinha agora lugar nas suas memórias. Eram outra vez aqueles putos que queriam ser homens, e que já o eram. Entretanto, vieram os Portos, twanies tal como o senhor pediu, disse ironicamente o empregado solícito pousando os copos na mesa. O empregado roda sobre si mesmo, educadamente, e afasta-se calmamente como a música que terminava. Mas porque estás tão tenso, José? o Viagente pensava. Também houve alguém que se afastou de ti? Ou és tu que te afastas de alguém? Sabes porque te chamei? perguntou José. De alguma forma já descobri, amigo, nem sempre a vida nos ama ou nós sabemos amar a vida. Ele estava triste. Os seus olhos profundos procuravam arrumar uma imensidão de vivências para as concentrar em palavras naquele momento. Perturbava-se. É a minha Anabela… José pausava o discurso, levava o Porto quente e sensual, como a sua esposa, aos lábios levemente. Na mesa em frente, a italiana mostrava as coxas e um olhar promissor para os que estavam consigo, e diagonalmente para os amigos que falavam. José bebia, procurava as palavras. Eu nem sei bem como é que te hei-de dizer isto, quer dizer… pá! Ela não está quando preciso dela. Chego do trabalho, cansado, estoirado cheio de problemas e ela nada, estás a perceber?! Não é a Anabela de antigamente, é como se fosse outra. Não é a mesma coisa! Homem, tem calma. Eu sei que precisas de descomprimir esse sofrimento que te esmaga. Vá, tem calma, diz-me o que é que se passa. Se eu soubesse, ai se eu soubesse era tudo muito mais fácil. Não entendo, percebes?! Simplesmente não entendo; parece que não está mais aqui comigo… sinto-a a fugir-me das mãos como grãos de areia seca, pá! E tenho medo, muito medo…tu desculpa-me, tu desculpa-me de eu estar com estas coisas. Estás tenso, amigo, já não te via assim há muito tempo. Tem calma, tu tem calma que tudo tem solução. Mas diz-me ao certo o que se passa, para tentar poder ajudar-te. Homem, a Anabela simplesmente não está.


Respirou fundo, engoliu em seco e finalmente começou a falar: É a minha Anabela. Ela endoidece-me. Já não me ama como dantes. Esqueceu todas as promessas e ela tem tudo, amigo, dou-lhe tudo. Que hei-de fazer? Ao balcão, o empregado falava trocistamente com o colega. A italiana descruzava as pernas. No entanto, o Viagente estava realmente atento ao que o amigo lhe dizia. Calma. Antes de te dizer o que hás-de fazer, tens de me contar o que se passa! José bebeu um trago ousado, no fim da boca permanecia o doce frutado e o perfume, o sabor de Anabela. Ela quando eu venho do trabalho recebe-me sem alegria. Está sempre cansada e triste por me ver. José pousou o copo e, olhando-o vazio, continuou: Sabes, a minha vida parece que desabou. O casamento é uma coisa difícil de manter. Quando olho para o passado e vejo tudo aquilo que construí com a minha mulher… agora parece que nada existe, parece que se quebrou qualquer coisa. Quando chego a casa do trabalho, ela recebe-me fria e distante. Acho que já não me ama. Suspirou, pela primeira vez enfrentando o olhar do amigo que o escutava, alheio ao movimento do bar. É duro manter o amor no casamento, sabes?, parece que estamos gastos, parece que somos dois velhos sem novas aventuras para viver. Estamos juntos por um hábito, uma rotina que nos prende àquela casa e que nenhum de nós quer quebrar, pelo menos por enquanto. A Anabela é a minha vida, entendes? Faço tudo por ela! Mas agora parece que nada resulta. Sabes… não a sinto comigo, como a sentia quando começámos a namorar. Já não temos aqueles vinte anos cheios de mística e de sonho. Tu desculpa-me estes desabafos, mas eu tenho que me abrir com alguém…Lá estás tu com essas coisas, homem, estás à-vontade comigo, respondeu o Viagente com aquele olhar de amigo que quer compreender e ajudar o outro. Já não há aquele brilhar de olhos que ela tinha quando lhe dava qualquer coisa. Já lhe trouxe prendas que vim a encontrar arremessadas com desprezo num canto qualquer. Agora que lhe ofereço roupas caras e até algumas jóias, ela olha-as com uma espécie de ternura indiferente. Não sei bem…, mas parece que anda à procura nessas coisas de algo, não entendo!


O bar estava agora simplesmente fechado para eles. Havia sido criada uma bolha sustentada por aquela coluna e pela planta de interior. Eram os fustes que aguentavam os capitéis de uma conversa de confissão em desabafo. Estavam ali, sós e alheados do resto. Sinto-me sozinho, pá… sozinho dentro da minha casa e sozinho na cama. Não quero parecer piegas, mas eu não sei o que se passa. Há algum tempo que a Anabela não me procura para estarmos juntos. Estou a perdê-la, amigo, e não sei o que fazer… Sabes o que acho? José não deixa o Viagente responder. Sabes o que acho? Acho que há outro homem! Tenho quase a certeza. Nunca lhe disse nada, porque agora levantou-se um muro entre nós que impede que falemos. Agora não falamos, pronunciamos sílabas que formam palavras, mas não comunicamos. Acho que há um homem na vida dela. Acho que ela se apaixonou por outro! Estou a perder a minha mulher, amigo, e não consigo fazer nada! José continha-se, conversava em tom baixo, embora quisesse explodir. Já nem na cama, sabes?, já nem na cama conseguimos comunicar. Já nem na cama encontro a minha Anabela. Desaprendemos o Amor. As mãos dela não me procuram e já não me lembro da última vez em que adormecemos abraçados um ao outro. De vez em quando fazemos sexo, mas já não nos amamos. Faço sexo com uma mulher distante, uma mulher que não se entrega, fria e sem desejo. Sexo seco. Sexo forçado, como um cumprimento de um dever; como o cumprimento do seu dever de mulher. José segura a cabeça com as mãos para não se perder; à sua frente, o Viagente tentava encontrar a solução para oferecer ao companheiro. É verdade… já não fazemos amor, é apenas sexo, um sexo barato em que apenas vemos um corpo e nada mais à nossa frente. Tu achas que há alguém metido?! pergunta de um modo magoado José. Como é que tu queres que eu saiba disso? Não estarás a efabular a situação?, tu tem calma… vocês são novos, não se casaram levianamente e estou certo de que há ainda amor entre vós. Eu não sei, pá, não sei, não sei nada… sinto sempre a situação a fugir por entre as minhas mãos. Eu tenho este projecto da clínica em que me farto de lutar. Tem tudo para resultar, mas consome muito tempo; quase que nem estou em casa. E quando chego, discutimos – pois, isso eu já percebi (José que estava a rodar o cálix do Porto de cabeça baixa sente-se descoberto por aquele comentário) – quase todos os dias por coisas tão insignificantes. Já não falamos à mesa, não compartilhamos os momentos. Não sei… mas tem que haver alguém… não me sai tal ideia da cabeça.


A italiana exibia gloriosamente as pernas rijas e morenas, alheia e distante da conversa dos que estavam ao seu lado. Tentava escutar as palavras sinceras e doridas daqueles amigos que falavam em aparente calma. Ela sabia que dialogavam sobre o amor, sobre uma mulher, sentia o cheiro da desilusão, o momento perfeito para surgir. Mas ainda não. O ambiente estava carregado; o fumo dos cigarros ao canto do bar criava um nimbo de suspensão do tempo. À volta daquela mesa, duas pessoas, dois homens, dois amigos, duas vidas, uma situação – e uma terceira pessoa que estava num não-ali. Urgia sair uma frase da boca do Viagente. Como nestas alturas a massa dos conceitos se desmultiplica numa fina sensibilidade apavorante entre a leveza do grama e a opressão da tonelada. Cada termo, cada frase devem nestas alturas ser milimetricamente escolhidas. É por isso que um amigo, ao aconselhar, inicia o seu discurso por uma pequena interjeição que se prolonga no tempo, para o ganhar um pouco mais. Há gaguejos, gesticulações, há inclusive um certo movimentar no assento para encontrar a posição argumentativa mais confortável para a ingrata tarefa de dizer as palavras certas. O Viagente olha nos olhos José até deixar de o ver, até fixar apenas a pupila para o poder ver inteiramente sem complexos e sem pudores. Tem calma, amigo! Tenho a certeza que a Anabela te adora como no primeiro momento. Sabes que o casamento tem dessas coisas. Por vezes, há momentos em que os amantes parecem desencontrar-se, mas caminham lado a lado. Ela ama-te, José, que tolice a tua pensares que te está a trair! Calma! As palavras saem da boca daquele amigo longas, em gerúndio para que ecoassem bem no fundo do seu sentir. Entretanto, ela foi ao balcão buscar uma bebida e passa junto deles, olhando-os com uma promessa escondida nos lábios que não descerraram. José e o Viagente, no entanto, estavam distraídos, absorvidos pelo estranho mundo das relações humanas. É complicado, ela já não me deseja. E tu, como a desejas? Adoro-a. Como a adoras? Adoro-a com todo o meu amor. Acredito em ti, José, mas, por vezes, o amor é uma viagem entre dois mundos. Tem-la visitado?


O telemóvel do José interrompe a conversa. Devem ser clientes…, suspirou como se a vida tivesse o peso de um padecimento. Afasta-se um pouco da mesa para procurar um certo espaço para o diálogo. Sim…, senhor Engenheiro, como está?!… sim! … perfeitamente, senhor Engenheiro. Não se preocupe, nem o senhor nem a sua esposa. Leve-o directo para a minha clínica que resolveremos prontamente a situação. Até já e cumprimentos à sua esposa. A situação era as convulsões repentinas do chihuahua de companhia da mulher de um tal engenheiro Menezes. Levanta-te! Vamos embora! Tenho que ir trabalhar! A conversa ficaria aí, presa e não suspensa. Era uma urgência muito importante: não se podia perder um cliente daqueles. Tinha demasiada influência. Vamos, mexe-te! O chihuahua da mulher do engenheiro Menezes está com convulsões. Tenho que ir lá, rápido! Anda!...

André Matias
Ricardo Oliveira